A Jerusalém do século I
Segunda Guerra Hebreus x Romanos


A segunda guerra judaico-romana, também chamada Guerra de Kitos (Rebelião do Exílio"), foi uma revolta de hebreus contra o Império Romano ocorrida entre os anos 115 e 117, durante o governo do imperador Trajano, envolvendo comunidades hebraicas da diáspora (hebreus que viviam fora da Judeia), o termo “Kitos” é uma corrupção do nome do general romano Lúsio Quieto.

Após o fracasso da grande revolta da Judeia (primeira guerra hebreu-roma), que resultara na destruição do Templo de Jerusalém (Beit HaMikdash), o governo romano transformou a contribuição anual que os hebreus da Diáspora enviavam para a manutenção de seu Templo em um imposto (Fisco Hebreu), aonde destinou ao Templo de Júpiter Capitolino, no monte Capitolino (Monte Capitolino é uma das sete colinas sobre as quais foi fundada a cidade de Roma), na capital do império.

Apesar da contribuição ser insignificante, muitos hebreus recusaram-se a pagar o imposto e um clima de revolta espalhou-se pelas comunidades hebráicas de várias cidades

Um ano após o fim da revolta na Judeia, houve uma tentativa de rebelião em Alexandria rapidamente sufocada pelos romanos.

Com receio que o templo hebreu de Leontópolis (Cito no extremo sul do Delta do Nilo) seguisse o exemplo do templo de Jerusalém, a nível de conspiração, o imperador Vespasiano ordenou seu fechamento.

Pouco tempo depois, na província romana da Cirenaica, um tecelão judeu, Jônatas, declarando-se possuidor de autoridade messiânica, conduziu seus seguidores ao deserto para esperar prodígios que anunciariam o advento do "reino de Deus", embora estivessem desarmados, foram atacados e abatidos por uma força romana enviada pelo governador Catulo, os poucos sobreviventes acabaram sendo submetido à tortura e executados

Catulo fez revelações que deixaram o governador convencido que por trás do simplório tecelão, havia uma considerável massa de hebreus ricos sobretudo em Roma e Alexandria, incetivando uma vasta rebelião hebraica no interior do Império Romano, até o nome de Flávio Josefo apareceu na lista de supostos envolvidos na conspiração.

O cenário manteve-se aparentemente calmo até 115, quando grande parte das tropas romanas baseadas na África foi retirada para participar de uma campanha do imperador Trajano contra os partas na Mesopotâmia.

Com a saida destas tropas as revoltas hebraicas estouraram quase simultaneamente em diferentes pontos do império, na Cirenaica, Egito e em Chipre.

Trajano avançou, rapidamente, pela Mesopotâmia, devastando a região ao lado do Eufrates, densamente povoada pelos hebreus, e conquistou o reino de Adiabene, situado no território que no passado era a Assíria, e cuja família real se tornara hebraica duas gerações antes.

Trajano continuou indo em direção ao Leste mas teve que retroceder, pois nos territórios que acabara de conquistar, hebreus judeus investiram contra as guarnições romanas deixadas pelo imperador.

A insurreição rapidamente se espalhou para Cirenaica, Egito e Chipre, não tardando a evoluir para uma guerra, com a população judaica dessas três províncias organizando exércitos regulares, atacando os soldados romanos e chacinando os habitantes greco-romanos.

Cidades com populações hebraicas, como, Nísibis (atual Nusaybin), Edessa (atual Şanlıurfa), Selêucia e Arbela também aderiram à rebelião.

Na Cirenaica, os hebreus foram liderados por Lucas que se auto-proclamou "rei" (segundo Eusébio de Cesareia), destruiram muitos templos, inclusive os de Hécate, Júpiter, Apolo, Ártemis, e Ísis, bem como as estruturas civis que eram símbolos de Roma, como o Cesareu, a Basílica, e as Termas, um total de mais de 200 mil gregos e romanos teriam sido assassinados pelos hebreus

A população greco-romana sofreu horríveis massacres, a violência dos hebreus foi tão selvagem que anos depois o imperador Adriano precisou deslocar colonos de outras partes do império para repovoar a província.

De Cirene (capital da Cirenaica), Lucas se dirigiu a Alexandria, onde parte da grande comunidade hebraica local aderiu à rebelião, bairros gregos foram incendiados e templos foram destruídos, além da tumba de Pompeu.

Milhares de gregos foram assassinados, sem distinção de sexo ou idade, também houve distúrbios em Hermópolis e Mênfis, para enfrentar os hebreus amotinados, Trajano enviou tropas sob o comando do prefeito do pretório, Quinto Marcio Turbo.

A luta se prolongou até o outono de 117, quando os últimos hebreus foram exterminados, bens e propriedades hebraicas foram confiscadas para reparar os danos causados pela rebelião, Lucas conseguiu fugir presumivelmente para a Judeia.

Em Chipre, os hebreus liderados por Artêmio assumiram o controle da ilha, incendiaram a cidade de Salamis e massacraram a população grega.

Os próprios amotinados alegaram ter matado 240 mil, Trajano enviou contra eles a VII Legião Cláudia, que reconquistou a ilha e exterminou todos os revoltosos.

Tal foi o ódio deixado pelos hebreus perante a população, que resultou em uma rejeição, nenhum judeu podia por os pés em Chipre, sob pena de morte, até os náufragos que fossem encontrados nas praias da ilha seriam mortos imediatamente.

Para acabar com a revolta hebraica na Mesopotâmia, Trajano designou o general Lúsio Quieto, que tratou os hebreus com extrema crueldade, massacrando comunidades inteiras sem distinção entre os inocentes e os envolvidos na rebelião. Mandado, em seguida, para a Judeia onde também já se apresentavam sinais de revolta, Lúsio sitiou a cidade de Lida (reduto dos hebreus), tomando-a após um terrível cerco, a mortandade praticada pelos romanos foi tanta que os mortos de Lida são mencionados no Talmud.

Trajano morreu durante a campanha contra o partas, sendo sucedido por Adriano, em cujo governo a Judeia voltaria a ser palco de uma grande insurreição: a revolta de Bar-Kochba.

A Jerusalém do século I
Terceira Guerra Hebreus x Romanos


Depois da revolta de 115-117 EC, o governo romano tomou várias, e parecia que a velha nação havia sido destruída.

No ano 130, quando o imperador Adriano veio a Judéia, ordenou a construção de uma nova cidade para substituir a cidade que Titus arrasou até o chão. Jerusalém seria uma cidade romana com um templo romano dedicado ao supremo deus Júpiter

Dois anos depois, Adriano proibiu a circuncisão, fazendo uma lei contra esta prática que havia ofendido as sensibilidades gregas e romanas por muito tempo.

Neste momento, os judeus começaram uma guerra porque foram proibidos de mutilar seus genitais.

Os primeiros meses do ano 132, quando começou a construção para tranformar as ruínas de Jerusalém em uma cidade romana, a tumba de Salomão veio a tona

O governador romano Tineius Rufus (Quinto Tineio Rufo (Quintus Tineius Rufus - 90 - após 132))
severamente ignorou esta situação.

Toda Judéia ficou agitada, e os hebreus em todos os lugares estavam mostrando sinais de perturbação

POrém os hebreus encontraram um líder nacional chamado Simão, filho de um homem chamado Kosiba. Algumas de suas cartas sobrevivem, e informa claro que ele estava firmemente no comando no primeiro ano da revolta (3 de abril de 132), ele ainda teria escrito outra carta em 6 de novembro de 135

As frases de abertura de uma carta hebraica deste período merecem ser citadas:
"É executado no vigésimo oitavo MARHESVHAN do terceiro ano de Simon ben Kosiba, príncipe de Israel"
Um estilo de escrita indicando que Simon era visto como o governante legítimo.
[Cheshvan, abreviação de MARHESVHAN é o segundo mês do ano civil e o oitavo mês do ano eclesiástico do calendário hebraico. Na Bíblia hebraica é chamado de bul. É um mês de outono de 29 dias, exceto em anos "completos", no qual tem 30 dias, geralmente cai em outubro-novembro no calendário gregoriano]
De acordo com o historiador da igreja cristã Eusébio (c.260-c.340), Simão afirmou ser um luminar que havia descido aos hebreus do céu (História da igreja 4.6.2).

Em algumas de suas moedas e em suas cartas, ele se chama "Príncipe" (Nasi), um título que tinha dados messiânicos.
(Ezequiel 37.24-25 e vários documentos de Qumran).

Seus seguidores leais gostavam de fazer um trocadilho com o nome dele: seu nome verdadeiro era Simon ben Kosiba, mas ele geralmente era chamado de Bar Kochba (filho da estrela), o que de novo é uma reivindicação messiânica.

O rabino Aqiba, o presidente da academia rabínica de Yavne e líder religioso oficial dos hebreus nessa época, declarou que o comandante hebreu era o Messias.

O rabino Gershom e o rabino Aha concordaram, mas outros permaneceram céticos, e disseram que a grama cresceria nas bochechas de Aqiba antes que o Filho de Davi viesse.

A revolta foi claramente de natureza religiosa, os rebeldes estavam convencidos de que esta era a guerra apocalíptica que havia sido prevista pelos "profetas".

Suas moedas mostram uma estrela no topo e a Arca da Aliança dentro do Templo, escrita em letras hebraicas arcaicas, algumas moedas foram atingidas com a lenda "Eleazar, o sacerdote", o que sugere fortemente que um novo sumo sacerdote teria sido eleito.

Prevendo uma revolução o governador Tineius Rufus respondeu duramente, após receber reforços, ele se voltou contra os hebreus tratando sua loucura sem misericórdia, destruiu milhares de homens, mulheres, crianças, e sob a lei da guerra escravizou suas terras.

A partir do relato do historiador grego Cassius Dio, podemos deduzir que o esforço de guerra que se seguiu dos hebreus foi extenso, amplamente apoiado e fanático.

Mas parece que eles não conseguiram tomar Jerusalém, pelo fato de que as moedas rebeldes foram encontradas em toda parte na Judéia, exceto em sua capital.

Por outro lado, há algumas evidências (não conclusivas) de que um novo sumo sacerdote foi eleito, o que sugere que os hebreus controlaram o local do Templo pelo menos por algum tempo.

Porém o certo que Simão e seus homens conseguiram controlar o campo, documentos legais assinados pelo "príncipe de Israel" mostram que as propriedades do Império foram confiscadas e alugadas a camponeses hebreus.

Simão foi tão bem sucedido que o imperador Adriano foi obrigado a despachar seus melhores generais para reprimir a rebelião, Julius Severus, o governador da Grã-Bretanha foi um deles.

Teoricamente seu novo comando foi um rebaixamento, porque a Grã-Bretanha era uma província de muito prestígio, isto indicava a gravidade da situação, os outros generais foram Caio Quíncio Certo Publício Marcelo (Gaius Quinctius Certus Publicius/Poblicius Marcellus)e Haterius Nepos, os governadores da Síria e da Arábia

Simão sabia que os romanos mandariam uma grande força expedicionária e se preparou, não se atreveu a arriscar um confronto aberto contra os romanos, mas ocuparam as posições vantajosas no país e os fortaleceram com minas e muros, para que tivessem lugares de refúgio quando duramente pressionados e pudessem se comunicar uns com os outros sem serem observados no subsolo; e eles perfuravam essas passagens subterrâneas em cima com espaços para deixar entrar ar e luz.

Em dezembro de 133 ou janeiro de 134 Júlio Severo substituiu Tineius Rufus como governador da zona de guerra, e comandou um grande exército.

Três legiões foram implantadas:
VI Ferrata
X Fretensis - fortalecido às pressas com fuzileiros navais da Itália
XXII Deiotariana, provavelmente pelo menos dezessete unidades auxiliares lutaram na Judeía.

A Legião XXII foi provavelmente aniquilada pelos hebreus, pois não há indicações de sua existência após esta guerra.

Novos reforços foram enviados, a II legião Traiana Fortis, há indícios de que unidades de outras legiões estavam envolvidas na luta, possivelmente a III Cirenaica, III Gallica e IIII Scythica, pela primeira vez em mais de um século os romanos sofreram com a escassez de soldados, dois senadores começaram a recrutar garotos italianos.

Os romanos experimentaram grandes dificuldades quando tentaram subjugar a Judéia, e fizeram alguns progressos somente depois que o imperador veio pessoalmente à Judéia.

Os soldados romanos eram usados ​​para lutar batalhas em grande escala, mas Simon evitou esse tipo de luta, os generais de Adriano foram forçados a formar unidades menores para interceptar pequenos grupos de rebeldes, fome, doença e fogo provaram ser melhores armas do que espadas e lanças.

A Serpente usa astúcia


Severus não se aventurou a atacar seus oponentes a qualquer momento, tendo em vista seu número e fanatismo, aos poucos foi prendendo pequenos grupos, graças ao número de seus soldados e suboficiais, e privou-os de comida e água, assim ele conseguiu, com certa lentidão, sem um perigo comparável, exterminá-los, poucos hebreus de fato sobreviveram.

Cinquenta dos seus postos avançados mais importantes e 985 aldeias mais conhecidas foram arrasadas.
580.000 foram mortos nos vários compromissos ou batalhas, quanto aos números que morreram de fome, doença ou fogo, isso ficou impossível de saber ao certo

Foi o tipo de guerra que os romanos tentaram esquecer, quando o autor romano Cornélio Fronto escreveu uma carta ao imperador Marco Aurélio por ocasião da destruição de uma legião pelos partas no ano 162, comparou-a à revolta de Bar Kochba, implicitamente admitindo que esta última havia sido uma derrota

Os Romanos recorreram a terríveis atrocidades para vencer a guerra. Os corpos ficaram abandonados por muito tempo.

Há três relatos de que crianças foram enroladas em rolos da Torá e queimadas vivas, pode até ser umexager, mas os legionários romanos eram perfeitamente capazes de atos como esses.

Muitos hebreus se arrependeram da rebelião, um novo apelido com o nome do Bar Kosiba tornou-se popular: alguns o chamavam de Simon Bar Kozeba (O filho da decepção)

O cristão Jerônimo (século IV) escreve que o povo da Judéia tiveram tanta aflição que junto com suas esposas, filhos, ouro e prata, permaneceram em túneis subterrâneos e nas cavernas mais profundas

Arqueólogos foram capazes de confirmar esta afirmação, quando encontraram restos humanos, utensílios de cozinha e cartas em cavernas em Wadi Murabba(*)`at e Nahal Hever(**)
(*) Wadi Murabba, também conhecido como Nahal Darga , é uma ravina cortada por um riacho sazonal que vai do deserto da Judéia, a leste de Belém, passando pelo Herodium até o Mar Morto, 18 km ao sul de Khirbet Qumran, na Cisjordânia, foi nestas cavernas que os hebreus se esconderam durante a revolta de Bar Kochba, deixando para trás documentos que incluem algumas cartas assinadas por Simon Bar Kochba
(**) Nahal Hever é um riacho intermitente no deserto da Judeia que flui da área de Yatta para o Mar Morto O nome é derivado da cidade de Hebron, o riacho tem algumas cachoeiras, a mais alta equivale a mais de 140 metros (460 pés)
Os romanos ganharam a vantagem, Simão fez sua última parada em Betar, três horas a sudoeste de Jerusalém. Os defensores estão registrados por terem pego as pedras das catapultas romanas e as atiravam de volta.

O cerco durou muito tempo, até o inverno de 135/136 (Simon ainda era capaz de enviar cartas em 6 de novembro de 135

Os rebeldes nunca se renderam, mas morreram de fome e sede, entre os cadáveres, os legionários reconheceram o de Simão, filho de Kosiba.

Quando trouxeram a cabeça para o imperador Adriano, ele disse: 'Se o seu Deus não o tivesse matado, quem poderia tê-lo vencido?'

Segundo a tradição judaica, a fortaleza Betar(***) teria caido no nono dia do mês de Av, no calendário gregoriano, isso seria 25 de julho de 136, porém tal data pode não ser exata, porque esta é também a data da destruição do Templo em 70.

Desde que Adriano aceitou o título Imperator ('conquistador') no final de 135, devemos supor que Betar foi capturada em novembro ou dezembro.


(***) Betar, sítio histórico próximo à moderna Battir (sudoeste de Jerusalém), foi a última fortaleza defendida pelos hebreus liderados por Simão bar Kokhba, na terceira revolta contra o Império Romano (Revolta de Bar Kokhba), ocorrida de 132 a 135
As palavras de Adriano ao ver a cabeça de Simon causou algum debate acadêmico, Adriano estaria realmente presente? A resposta é que ele estava, os textos romanos usam a expressão expeditio hebraico, o que pode significar que o imperador estava presente, além disso um oficial da guarda imperial, Arrius Clemens que foi condecorado pelo serviço de guerra na Judéia pelo imperador.

Este não foi o fim da luta, no entanto, a recente descoberta de um arco triunfal no bairro de Scythopolis (Beth Shean), dedicado em 136 ao imperador pelo Senado, prova que a luta continuou na Galiléia.

Muitos romanos morreram na guerra. Portanto, Adriano, ao escrever para o Senado, não empregou a frase de abertura comumente afetada pelos imperadores: 'Se você e seus filhos estão com saúde, está bem, eu e o exército estamos com saúde"

Após a derrota dos hebreus, Adriano tentou destrui-los, os prisioneiros foram vendidos em Hebron e Gaza, cada um ao preço de um cavalo, ele proibiu os conquistados de ensinar a lei mosaica e possuir pergaminhos. Canaã foi renomeada para Palestina, e Jerusalém passou a se chamar Aelia Capitolina.

Santuários foram erigidos sobre locais do culto hebraico, o templo de Júpiter foi erguido no local do Templo dos hebreus, a estátua equestre (Escultura de um cavaleiro montado em seu cavalo) de Adriano foi colocada no Santo dos Santos, e a deusa Afrodite recebeu um novo lar

Na frente do portão sul de Aelia (Jerusalém), os romanos ergueram uma estátua de mármore de um porco. (Símbolo da Décima Legião Fretensis, tinha como finalidade um insulto)

Os hebreus não foram sequer autorizados a ver sua cidade natal ancestral, o rabino Aqiba violou esta ordem, e depois de algum tempo na prisão foi torturado até a morte, pelo menos nove outros rabinos foram executados também.

Após a morte de Adriano, a reconciliação começou, o imperador Antonino Pio permitiu o enterro dos mortos e revogou a proibição da circuncisão que causou a guerra (Digests 48.8.11)

Os rabinos começaram uma discussão autocrítica, reivindicações messiânicas em geral eram consideradas suspeitas, quando Jehuda ha-Nasi compôs essa grande coleção de sabedoria rabínica, a Mishna, ele deixou de fora muitas especulações messiologicas.
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